Dubladora do interior de SP transforma brincadeira de infância em profissão e dá voz a personagens de The Walking Dead, LoL e Overwatch
29/06/2026
(Foto: Reprodução) Dubladora de Presidente Prudente brilha no cenário nacional em séries, filmes e jogos
Uma brincadeira em frente à televisão, ainda na infância, acabou se transformando na profissão que mudou a vida de Lia Mello, de 33 anos.
Natural de Presidente Prudente (SP) e morando atualmente em São Paulo, ela já deu voz a personagens de séries, filmes e jogos que conquistaram milhares de fãs e, agora, comemora mais um Dia do Dublador, celebrado nesta segunda-feira (29).
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Em entrevista exclusiva ao g1, Lia relatou que o interesse pela profissão surgiu quando tinha cerca de 10 anos de idade.
Ao lado de um primo, Lia costumava colocar a televisão no mudo para improvisar as falas dos personagens.
"Nessa mesma época, meu primo, que era muito fã de Chaves e dublagem, baixava uns vídeos no computador e, com a ajuda de um software de edição, me colocava para dublar os personagens femininos e ele fazia os homens. As falas podiam ser as originais ou improvisadas, porque fazíamos por diversão. E essas brincadeiras acabaram levando para a minha profissão atual", contou Lia.
Dubladora de Presidente Prudente brilha no cenário nacional com personagens de séries, filmes e jogos
Lia Mello/Arquivo Pessoal
Por mais que sempre sonhasse em ser atriz, Lia afirma que nunca teve certeza de qual caminho iria seguir. Ela fez teatro, participou de testes para produções audiovisuais e acabou encontrando na dublagem o espaço onde conseguiu construir a carreira. Mesmo assim, o início exigiu paciência.
"Começar é muito difícil porque você não começa pegando vários trabalhos de uma vez. Você começa muito devagar, se pegar um trabalho por semana, já está no lucro. E para quem tem um emprego CLT, é muito difícil pegar escalas de dublagem, porque os estúdios dão preferência para pessoas com uma agenda mais flexível. Também é um desafio conhecer as pessoas do meio e fazer elas lembrarem do seu rosto e da sua voz para te dar trabalho", expressou Lia.
A estabilidade veio aos poucos. Primeiro, trabalhando como tradutora freelancer para um estúdio, enquanto ainda mantinha um emprego com carteira assinada. Posteriormente, quando passou a receber escalas de dublagem diariamente, decidiu apostar definitivamente na profissão.
"Ela me proporcionou independência e a possibilidade de morar na cidade que eu sempre quis desde pequena, além de viver o sonho de ser artista", relatou a dubladora.
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Dubladora de Presidente Prudente brilha no cenário nacional com personagens de séries, filmes e jogos
Lia Mello/Arquivo Pessoal
Como nasce uma personagem?
Muito além de simplesmente "emprestar a voz", o trabalho de um dublador envolve interpretação, sincronização e emoção. Antes da gravação, um diretor escolhe quais profissionais melhor se encaixam em cada personagem. Em alguns casos, ainda são realizados testes até a definição do elenco.
Já no estúdio, o dublador recebe orientações sobre a história e grava apenas as cenas em que sua personagem aparece. Para Lia, o maior desafio acontece justamente durante a interpretação.
"O mais difícil é fazer tudo isso ao mesmo tempo" - brincou Lia - "A tríade é o que faz uma dublagem de qualidade e deixa o filme natural a ponto de não parecer que está dublado".
Ela explica que o tempo necessário para concluir um trabalho varia bastante. Enquanto alguns filmes podem ser finalizados em poucos dias, produções com muitos personagens e diálogos rápidos podem levar semanas.
Dubladora de Presidente Prudente brilha no cenário nacional com personagens de séries, filmes e jogos
Lia Mello/Arquivo Pessoal
Personagens
Ao longo de 11 anos de profissão, Lia participou de diversas produções, mas algumas ocupam um lugar especial na memória. Entre elas estão:
Enid, da série The Walking Dead;
Qiyana, do jogo League of Legends (LoL);
Kiriko, de Overwatch;
Sara Campbell, protagonista de Todo Mundo em Pânico 6.
Entre as personagens que tem um lugar especial no coração de Lia, estão Enid, da série The Walking Dead, Qiyana, Kiriko e Sara Campbell
Reprodução
Segundo a dubladora, conquistar sua primeira protagonista nos cinemas depois de mais de uma década de carreira reforça uma das principais características da profissão: a necessidade de persistência.
"Mesmo depois de 11 anos de profissão, só agora consegui minha primeira protagonista nas telonas", comentou a dubladora.
Ela também guarda lembranças curiosas dos bastidores. Em uma das gravações de The Walking Dead, por exemplo, um morcego apareceu dentro do estúdio.
"Ele ficou paradinho em um canto, de ponta-cabeça, mas eu não arrisquei ficar lá dentro e contar com a boa vontade dele de ficar parado. Ninguém sabe como foi que ele entrou lá e também não sei como ele saiu. Nós fomos para outro estúdio gravar", contou sobre o perrengue.
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Inteligência artificial
Lia Mello participou, em Brasília (DF), de mobilização em defesa da dublagem humana diante do avanço da inteligência artificial
Lia Mello/Arquivo Pessoal
Além de celebrar a profissão, o Dia do Dublador também acontece em meio a um debate que mobiliza a categoria: o avanço da inteligência artificial.
Há mais de um ano, profissionais da área defendem a regulamentação do uso da tecnologia para impedir que gravações sejam utilizadas no treinamento de sistemas sem autorização. Para Lia, a principal preocupação é proteger o trabalho humano.
"A IA não precisa deixar de existir, mas ela precisa ser regulamentada o quanto antes. Questão de segurança pública", defendeu Lia.
Ela ainda afirmou que a categoria busca incluir cláusulas em contratos para impedir que as gravações sejam usadas no treinamento de ferramentas de inteligência artificial.
Apesar dos avanços tecnológicos, Lia acredita que ainda existe um aspecto impossível de ser reproduzido por máquinas.
"Interpretação é sentimento. Por que dizemos que uma pessoa tem a interpretação robótica quando interpreta mal? Porque se você só fingir que está triste, você não vai transmitir tristeza. E a máquina não é capaz de transmitir absolutamente nada", explicou a dubladora.
Em 2024, dubladores de todo o país estiveram em Brasília para cobrar a regulamentação da inteligência artificial no setor artístico.
Lia Mello participou, em Brasília (DF), de mobilização em defesa da dublagem humana diante do avanço da inteligência artificial
Lia Mello/Arquivo Pessoal
Dia do Dublador
Para Lia, celebrar o Dia do Dublador é motivo de orgulho: "É uma honra enorme. Sinto um orgulho gigantesco da minha profissão. Eu simplesmente amo o que eu faço e sempre me dedico 200% no meu trabalho. Espero que isso transpareça em cada personagem, dos menores aos maiores".
A prudentina também acredita que a qualidade da dublagem brasileira está ligada ao jeito espontâneo dos artistas do país.
"A dublagem brasileira, desde o início sempre foi muito espontânea e brincalhona, e pra você dar vida em português pra um gringo em uma tela, você não pode ter medo de arriscar e, principalmente, de se divertir, e o público percebe isso", explicou.
Por fim, ela deixa um conselho para quem sonha seguir a mesma carreira: estudar muito, investir em teatro, leitura e preparação vocal, além de manter a humildade.
"Desenvolva sua interpretação com teatro, leitura, faça consultas com fonoaudiólogos para que suas chances aumentem ao máximo. Procure cursos de dublagem que tenham profissionais ativos no mercado. [...] As pessoas que mais trabalham são as que são humildes e abertas, além claro, de serem ótimos atores", concluiu Lia.
Dubladora de Presidente Prudente brilha no cenário nacional com personagens de séries, filmes e jogos
Lia Mello/Arquivo Pessoal
*Colaborou sob supervisão de Stephanie Fonseca
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